terça-feira, dezembro 30, 2003
Sei quem és… vi-te uma vez ou duas e vejo-te sobretudo nos meus sonhos de todas as noites. És tu que me pegas na mão, me abraças e me fazes sentir vulnerável, mais do que nunca feminina, fraca, indefesa. Fazes-me embainhar a espada com que sempre lutei, fragilizas-me e fazes com que queira ser protegida, amparada por ti.
Quero adormecer no teu peito, que me abraces e deixes que o mundo fique lá fora.
Quero dançar contigo e, mesmo que a música acabe, quero continuar pelo som da nossa própria musica, pela harmonia dos nos corpos a deslizarem por um campo só nosso.
Quero a tua inicial perto da minha, quero escrevê-las infinitas vezes como as crianças num diário, e ficar a olhar para elas juntas e esperar que seja para sempre.
Quero nadar no mar num dia de Inverno e quero que estejas na margem à espera com uma toalha seca e macia, de braços abertos e que me envolvas para junto de ti enxugando-me da cabeça aos pés.
Quero que chegues num cavalo e me estendas a mão, me faças sentir que sou mesmo tua, nunca vou deixar de o ser, que me vais proteger, abrigar, acarinhar eternamente, vais correr incessantemente atrás de mim, por mim…
Quero tudo isto, sou egoísta e quero sê-lo mas já acho que mereço encontrar-te. Mereço ver-te que não em sonhos, mereço que me devolvas o olhar sem o medo de não ser correspondido, que percebas que eu também procuro o teu…
Afinal… também eu tenho ânsia de te amar…
Zi
segunda-feira, dezembro 29, 2003
Para a Di
É para ti que escrevo hoje, meu anjo. Estás longe… Porque será que damos mais importância às pessoas quando estão distantes de nós? Quando não lhes podemos tocar, abraçar… hoje em dia podemos telefonar… Mas o que eu queria mesmo, meu anjo, era poder falar contigo, sobre os meus temores, as minhas alegrias e dolências, os meus amores e desamores. Só que queria poder ver-te…
Meu anjinho que vieste ter comigo de mansinho… quase como o principezinho ao aviador e conseguiste acalmar-me só com o teu olhar, só com a tua voz a dizer-me: “Tens umas mãos tão bonitas”. Tu… tu é que tens um coração muito bonito, delicado e consegues embelezar o meu só por fazeres parte dele.
Poderia ficar horas a olhar para ti… a pensar na sorte que tenho por seres minha amiga, por ter alguém tão puro, sincero, verdadeiro, autêntico com quem posso contar sempre. Se tivesse uma varinha de condão faria aparecer para ti o melhor e mais gracioso dos príncipes para te fazer feliz. A ideia de que possas sofrer por alguém aflige-me, inquieta-me… Como pode haver alguém que tenha sequer a coragem de te fazer sofrer?
Não pode… não há… Seria uma autêntica malfeitoria cometida por alguém desvirtuado.
És tão genuína, transparente… fico fascinada pela tua maneira de encarar as coisas, pela tua lealdade, veracidade e franqueza. Quero sempre fazer algo especial para ti, todos os dias, dar-te sempre motivos para sorrir, para que os teus olhos brilhem. E os teus olhos fulguram por tão pouco…
És sempre alguém com quem posso contar, és a minha casinha no meio da floresta na qual, por acaso, despoletou a maior, mais horrenda e tenebrosa das tempestades… e é tão bom encontrar quietude, tranquilidade… a bonança… calor… calma…
Que posso dizer-te? Tenho por ti a mais profunda gratidão, reconhecimento, e uma verdadeira AMIZADE que nunca vais perder… meu anjinho!
Zi
O Beijo
Detesto novo riquismo e a mania de dar apenas um beijo. Como se isso definisse se temos ou não educação. Como certas pessoas que se cumprimentam com um beijo e depois passam a noite inteira a esfregarem-se uns nos outros, a baterem palmas quando se riem ou ainda a sorver o que quer que seja que estão a beber. Isto irrita-me, põe-me doida e quase que me apetece desobedecer ao meu mestre e desatar à pancada a toda a gente. Era isso e umas liçõezinhas leccionadas pela minha bisa Beatriz. Ela sim, era detentora de uma educação exímia. Tomara aos parolos do beijo saberem metade ou terem metade dos valores da minha família. Mas como sou uma “nova pobre”, tenho a infelicidade de não ter credibilidade quanto à boas maneiras. Mas gostaria de relembrar que o tal “beijo” sempre foi reservado para as famílias, à boa maneira inglesa. O formal “how do you do?” chega muito bem! É por essas e por outras que dou graças a Deus pelos valores que a minha mãe me transmitiu. Para me comportar como ela só me falta mesmo de um pouco de know-how de psicologia. Ou seja, da capacidade de não me irritar com estas parvoíces. Espero sobreviver neste meio de cínicos, hipócritas, verdadeiros tolos, bestas humanas que se programam: Agora é um beijo, agora são dois, agora são três. Para mim, não é nenhum pois eu não gosto de dar beijos a essa gente.
Zi (DC, 23/09/2001)
domingo, dezembro 28, 2003
Porque estás longe
Porque estás longe chamo por ti
E chamo num desespero que me engana
Enquanto ouço o teu nome sair de mim
Sinto-te perto porque tento sentir-te
Mas continuas longe…
E uma lágrima que abafa o último grito
Desliza sobre minha face enquanto não chegas
Eis que contemplo teu olhar que recordo
E não me conformo…
E não durmo
E não acordo.
Apenas sonho.
Flutuas em mim, como barco longínquo
Vejo-te ao longe mas ainda te sinto
Perto, tão perto e que saudade!
Zi
F-R-A
Saio de manhã para a faculdade. O Sol ainda mal saltou da cama, mesmo estremunhado lá me dá os bons dias quando saio do carro depois de estacionar. Sou priviligiada, entro às 8 e tenho sempre estacionamento. Sinceramente, não sei até quando. Frequento a universidade de Coimbra há apenas 2 anos e já retiraram metade do estacionamento disponível. Há que sacrificar o estudante. Tal como diria o meu mestre: “Homem que não sofre não é homem”; ao qual eu respondo sempre “Eu sou mulher”, para me escapar às flexões. Mas este é o primeiro dos problemas que o estudante encontra. No primeiro ano de faculdade é imediatamente atirado para o covil. Na primeira aula o professor faz questão de sequer dizer o nome e começar logo a falar do programa, quando não desbobina um rol gigante de matéria que leva uma semana para estudar. Acabaram as fichas de apresentação; nome do pai, nome da mãe... Sim, porque os que interessam já o professor sabe muito antes de começar o ano, esquecendo a porta da estrebaria aberta. Depois, até à época de exames parece que estamos numa ilha paradisíaca sem deveres nem obrigações até aparecer um grande R na pauta. R significa Retorno à realidade, Riso dos colegas competitivos, Ralhete dos pais de volta à terra. Desculpem se vos dou uma ideia pouco positiva sobre o que é a universidade. Mas tem o seu lado magnânimo. Sim, também temos um ou outro professor que se preocupa e que tira dúvidas no gabinete que fica não-sei-onde em horários que ninguém pode. Convívios e jantares excelentes com um mundo de preto, branco e alcoól. As serenatas, latadas, queimas, garreiadas, bailes de gala enfim... o nosso mundo, os melhores dias da nossa vida para serem partilhados com os nossos melhores amigos e com os pais que mal dormem nessas semanas. Capas ao ar! Vai um F-R-A?
Zi (DC, 16/10/2001)
O teu cheiro
Não suporto mais este teu cheiro. És tu, sempre, insistentemente que me procuras quando a tua noite se torna mais frígida, glacial. Foste tu que partiste sem aviso, ou de aviso anunciado em letras pequeninas como as dos anúncios enganadores.
Não suporto mais este teu cheiro. Ficaste aqui, em cada canto, em cada porta-retratos, em cada armário que se abre para arejar todos os dias. Mas não consigo fazer-te sair…
Não suporto, não quero suportar, mas o teu cheiro está em mim e fazes com que não me suporte a mim mesma, não me cheire, me banhe em indefinidas doses de outros pensamentos e ainda assim imagino-te perto de mim… tão perto que não te distingo para te afastar…
Perco horas a contemplar o crepitar das chamas que acende outros dias em mim. Atiça outros sentimentos de outras índoles que não a solidão que agora me preenche.
Que paradoxo… ser cheia de solidão. Cheia de algo que não completa, que não inteira nem perfaz ninguém. Ninguém. É assim que me sinto sem ti. Se pudesse tocar-te, eu…
Eu não suporto mais este teu cheiro! Mas que posso fazer quanto a essência que me mantém viva, que mantêm pelo menos o sentimento de não a querer por perto, que consegue sensibilizar-me, manter-me consciente…?
Afinal, para que quero ser lúcida se a transparência me demente, me faz gritar por um simples odor que estou a perder e mesmo assim não quero suportar…
Não suporto… que me tenhas deixado para aqui a articular palavras imoderadas, desgarradas, a meditar não sei muito bem em quê e quando sei, prefiro não saber. Fiquei doente… será esta a palavra? Mórbida, enferma, débil, fraca. Será justo? Justificado? Merecido? Devido? Talvez…
Talvez não suportes… a minha indiferença, insensibilidade e desapego. Deixei-te sozinho, solitário, simplesmente só. Mas nessa altura estavas comigo. Deve ser pior sentir a ausência de quem está presente. Sentir que quem está ao nosso lado pertence a um mundo próprio para o qual ninguém tem a chave e a muito custo se vai abrindo um bocadinho, como se de néctar divino se tratasse e vertesse para os comuns mortais por engano. Sempre tive medo que depois do néctar bebido fosses procurar outros frutos interditos, escondidos. Talvez não aguentasses tu o meu cheiro ao pé do teu quando não o podias entranhar em ti. Talvez quisesses bebê-lo com as narinas sedentas por todo o meu corpo ou apenas deixar que se misturasse com o teu e aí sim sentir o odor mútuo que nascia entre nós.
É este, afinal é este o cheiro que não suporto que acabe, não quero que esteja a sair de mim lentamente, que todos os dias me obrigue a procurá-lo, a suportá-lo, a desejá-lo e a sustentá-lo com as gotas que vão evaporando pela casa.
Não suporto mais este teu cheiro que me acorda e me adormece, que me elucida e enlouquece, que me faz sorrir e me entristece, que… que me abandona paulatinamente…
Deixa-me cheirar-te só mais uma vez…
Zi
Saddam... a quanto obrigas!
A notícia acordou Portugal numa euforia descomunal! As vizinhas correram às janelas e, qual nascimento do príncipe primogénito em plena idade média, desataram num chinfrim digno de galinheiro! Capturaram o Saddam! Hoje em dia as pessoas impressionam-se com pouco. Coitadas, principalmente as portuguesas. Que bom, capturaram o Saddam! Mas não se esqueçam que Portugal caminha a passos largos para se tornar um país de terceiro mundo! Que bom, capturaram o Saddam! Mas lembrem-se que temos estádios no lugar de urgências pediátricas que, ao invés de deixar um coitado de um hooligan desiludido deixa uma criança em sofrimento nos bancos imundos das escassas urgências disponíveis. Que bom, capturaram o Saddam, mas temos fraudes atrás de fraudes até no acesso ao ensino superior, pedofilia, uma cidade capital da prostituição, um governo pouco firme, uma pátria deitada abaixo. Que bom, capturaram o Saddam! Mas fomos nós que o capturamos? No tempo da nação valente, imortal teríamos sido nós os heróis? Porque estamos tão contentes? Se esta prisão vai ter consequências incalculáveis a nível mundial, um imprevisível número de mortes, um futuro incerto para todos…
Que bom? Que bom que era um dilúvio…
Zi