quinta-feira, janeiro 29, 2004
Fernando – O Drogado
É triste quando vemos alguém seguir um mau caminho. Escrever sobre um Sérgio fez-me lembrar que me faltou referir um Fernando! Que jovem ainda não ouviu falar do grande flagelo que é a droga? E que jovem não conhece um ou outro caso mais próximo relacionado com este mesmo flagelo? É triste, mas é a realidade. Com a educação que os pais dão hoje em dia aos filhos até me admira que não se verifiquem um ainda maior número de casos. Fernando era um bom rapaz. Mesmo muito boa pessoa. Desde criança que emprestava todos os seus brinquedos aos outros meninos, desejando, no fundo, que não os estragassem. Sempre teve tudo no que toca a bens materiais, tudo o que pudesse ser mostrado aos outros para que achassem que os seus pais eram óptimos nesta qualidade. Mas há sempre uma altura em que o pano cai e as aparências passam a ser o que realmente são: algo que parece mas não é. Fernando sofreu imenso com isso. Quantas noites aquele menino foi deixado a dormir solitário em casa para os pais se irem divertir! Convenciam-no com palavras: “Já és um homenzinho”. Mas aquele homenzinho de seis anos que me dizia que já aquecia o leite sozinho, queria era aquecer-se no colo da mãe e ali adormecer sem medo de acordar abandonado na sua cama fria. Passava tardes inteiras a brincar na rua com a cara bicicleta e a bola oficial da FIFA e tudo o que ele queria era a companhia do pai e jogar com ele com uma bola de trapos. Dizem que as crianças gostam de andar soltas, livres e ele gostava de vir para minha casa onde eu tinha pais atentos, carinhosos e onde ele sentia que havia uma família. Mas não era a dele… Tanto não era, que a certa altura divergimos no caminho da vida. Ele tomou uma estrada desconhecida, como a vida sempre lhe pareceu… desconhecida. Nunca ninguém lhe ensinou os pequenos tesouros da vida. Fernando teve que os descobrir sozinho, pelos próprios meios. Desamparado, encontrou pela primeira vez um grupo igual a ele, de rapazes abandonados, tristes, largados, que descobriram consolo na droga. Ao longo destes textos, tentei não utilizar a palavra droga. Soa-me estridentemente. É uma palavra amarga que quero longe de mim. A verdade é que ela estragou a vida ao Fernando. Ele podia ser um bom profissional em qualquer área que escolhesse. É óptimo a lidar com pessoas… quem sabe um bom psicólogo! E andou em tantos quando os pais, desesperados pela imagem que o seu filho andava a transmitir deles, decidiram desencobrir o que se passava! Já há muito se tinham apercebido. Mas custa aceitar, não é? Principalmente quando há outros filhos e estes escolheram caminhos diferentes. É a desculpa que gostam de encontrar: “dois irmãos criados da mesma maneira e com desfechos tão distintos!”. Mas os paizinhos esquecem-se que as pessoas são diferentes, exigem coisas diferentes e o Fernando, pela sua bondade nunca exigiu mais que um lugar sossegado para morar. Agora, é apenas sombra do que poderia ter sido, nem isso chega a ser. Salta de clínica em clínica para se recuperar. Não é fácil arranjar coragem para sair de um poço senão se tiver um bom motivo, algo que nos puxe. Se os pais lhe dessem força, admitissem que erraram e lhe mostrassem que estavam dispostos a mudar, aposto que Fernando tirava forças lá do fundo, onde ainda mora a criança que precisa de ser amada e saía da escuridão que se tornou a sua vida. Mas há um egoísmo que nunca largou e jamais largará os seus pais, que ainda têm cara para vir ao café, contar das grandes viagens ao Brasil e à Republica Dominicana de onde vêm com bom ar. Apetece-me é perguntar-lhes pelo filho que deve andar pálido, encovado, cadavérico, doentio à espera que lhe estendam a mão que sempre lhe negaram!
Zi
quarta-feira, janeiro 28, 2004
"The Sun is warm, the grass is green"
Pat Morita, The Next Karate Kid, 1994
terça-feira, janeiro 27, 2004
Parabéns MARIA!
A minha amiga Maria faz hoje 23 anos!
Deixem-lhe uma mensagem!!! :)
Zi
domingo, janeiro 25, 2004
Congéne – O Preto
Congéne é preto. Podia chamar-se Domingos, Jurandi, Patué, Miguel ou José. “Que racista!” – Aposto que meia dúzia já me chamou racista só porque chamei preto ao Congéne e não negro. Sim! Ele é preto! Não é negro porque eu sou branca e não clara. Ele não caiu numa lareira como eu podia ter caído e por isso ter ficado negra. Ele é preto porque a sua melanina está mais evidenciada que a minha que sou branca.
Sou amiga do Congéne porque na sua cultura ser amigo é, tal como na minha, dar a vida por ele.
Se repararem, o Congéne tem dois olhos, um nariz e duas orelhas, tem um coração e um fígado e… querem saber? Eu também! Mas se eu fosse com o Congéne a uma loja e desatasse a tocar um alarme irritante, ficava toda a gente a olhar de esguelha para o Congéne… Se fosse um reality show, toda a gente daria a vitória ao Congéne para mostrarem a todos que não são mesmo nada racistas. Mas se o Congéne pedisse esmola na rua, seria o “preto de um raio” que devia ir para África. O Congéne é, consoante quem o vê.
No país dele morre-se à fome. Na sua cidade há hora de recolher por causa de uma ameaça constante. Lourenço Marques de outros tempos, onde ele e os irmãos viveram. Eram rechonchudos, com duas pernas e dois braços. Bebiam o leite da mamana, de peitos trementes a escorrer um leite quente e saboroso. Agora, a descendência está dividida. Uns estão em Maputo a morrer à fome, barrigas inchadas, gordas de doença, outros nos arredores de Lisboa a abraçar a droga, o vício, o delito nos bolsos dos transeuntes… Eles e mais uns quantos, que apesar de não terem caído na lareira são negros de consciência. Independentemente da cor da pele, há a cor da alma e a do Congéne é da cor da minha.
A sociedade tende apenas a olhar para os crimes de bolsos, para os carteiristas que os afectam directamente, no momento do acto e lhes causa a maior indignação. A mim, causa-me maior revolta ver enormes contas bancárias em senhores que se dizem de respeito e confiança, que tomam conta do património nacional. Afinal, há negros de ambos os lados, há a tal negridão de alma… Desses já fujo eu a sete pés!
Noutro dia, desloquei-me a Lisboa com alguns amigos para aproveitar o fabuloso saldo dos trapos. Passámos por vários pretos e notei alguma apreensão por parte de uma das minhas amigas. Compreendi-a, como devem calcular, mas nunca se deve julgar alguém pela aparência. Compra puxa compra e instala-se uma náusea no meio dos farrapos que nos faz esquecer um saco num dos bancos do corte inglês. Um dos tais pretos, Domingos, Jurandi, Patué, Miguel ou José era afinal Congéne que amavelmente restituía o saco a seu dono.
Há, realmente, muitos ladrões por aí, mas podem ser brancos, pretos, amarelos ou verdes às bolinhas azuis. Não digo “coitadinhos dos pretos”, digo sim “coitadinhos dos que têm a alma lavada” e são acusados injustamente por carregarem na pele um passaporte que transpira preconceito.
Zi
sábado, janeiro 24, 2004
Nuno – O Beto
Quando andava no secundário lembro-me dos inúmeros grupinhos que se formavam. É engraçado como nos esforçávamos tanto por nos enquadrar, por ser aceites, fazíamos tantas coisas que não eram próprias da nossa natureza só para agradar aos outros. Não era muito deste género. Talvez por isso não tenha sido logo aceite e muito popular. Só o fui quando me tornei realmente adolescente, pré adulta… Acho que nessa idade já nos começamos a preocupar com o futuro e admirar quem o tem realmente preparado. Acho que foi por isso que começaram a respeitar-me e hoje vejo que espalham pétalas de rosa para eu passar, pessoas que em tempos me desprezaram por não usar a sua marca de roupa.
Nuno é um dos meninos pertencentes a uma classe repugnante: “os betos”. Quantas vezes me chamaram “betinha” ou então na faculdade “coimbrinha” (que quer dizer o mesmo vindo dos colegas que deixaram a aldeia mais próxima ou distante para vir colonizar esta pequena cidade)? Ser “beto” não passa pela marca da roupa que se usa como muitos pensam. Passa sim pela mentalidade. Se uso roupa de marca é porque gosto e porque tem qualidade e não pelas razões que a maioria pensa. Um beto quer lá saber da qualidade da roupa ou se lhe fica bem. Se arranjar marcas falsificadas, melhor, desde que tenha lá o emblema que constitui um cartão de visita para o seu grupo de falsos amigos. Começam cedo a criticar as vestes dos outros. Tive colegas humildes que se revelavam muito melhores amigos do que aqueles que exibiam o seu guarda-roupa como quem anda permanentemente numa passerelle. Depois passa pela mota que todos querem ter, é claro. Quem tem uma, é rei! Mas quem tem pais conscientes que não querem ver os filhos sem pernas, sem braços, sem andar ou sem vida, tem logo um rótulo de “excluído” na testa. Só volta a ser readmitido no grupo se até se esforçar e “cravar” dinheiro aos pais para pagar todas as bebidas de uma noite aos “amigos”. Nuno: és ridículo! Andas com as etiquetas à mostra, andas igual aos outros, cheiras ao mesmo que os outros, tens uma mota igual à dos outros, falas igual aos outros, mentes tal como os outros, fumas o que os outros fumam, sais sempre com os outros e vais para onde eles querem ir, criticas o que os outros criticam, gostas do que os outros gostam, cobiças a namorada dos outros, e gozas com ela porque os outros gozam… e tu? De que é que TU gostas? De que cheiros? De que músicas? De que motas? De que roupas? De que estilo? Qual é o teu estilo? O que faz de ti especial? O que faz de ti a pessoa que pensas que és? São os outros?
Pois são, os outros iguais a ti e a tantos mais que vivem a mesma vida, a mesma monotonia, não têm estilo próprio e são fotocopias, são folhas de um livro monótono a preto e branco que ninguém vai querer ler…
Zi
quinta-feira, janeiro 22, 2004
Lelo – O Cigano
Lelo, filho! É o que apetece dizer a seguir a Lelo. Já alguma vez se perguntaram de que raio de nome “Lelo” é diminutivo? Será que esse nome está registado? Não deverá estar… Já que Lelo gosta tanto de se por fora da sociedade. Sim, porque a sociedade tem regras e é muito difícil cumpri-las. Os ciganos, com o maior respeito pela raça cigana que na sua pureza admiro, evoluíram para um estado cigano-cidadão que nem é uma coisa nem outra, nem boi nem vaca, nem sim nem não, NIM! Mas a verdade é que apesar de não pagarem impostos recebem o rendimento mínimo da segurança social. Lelo faz um vidão! Parece não distinguir muito as prioridades do ser humano. Qualquer pessoa requer condições mínimas de higiene. Que pena me fez uma senhora com quatro filhos para sustentar, com um salário mínimo que consegue com muito custo e noites sem dormir, a pagar renda e a passar fome para os seus rebentos não se irem deitar de barriga vazia. Mesmo sem água quente para dar o banho que desejava aos seus filhos, aquece-a num alguidar e cuida-os o mais possível. Lelito! Existem doenças! Sabe lá ele! Sabe é aparecer no pediátrico e acampar à porta intimidando quem lá entra, sabe também desatar aos tiros no hospital para albergar o criminoso lá em cuidado e sabe melhor ainda no fim do mês ir buscar abonos de família e rendimentos mínimos e subsidio para isto, ajuda para aquilo e tudo mais que é de direito dos verdadeiros cidadãos, os que pagam impostos, os que se tentam realmente integrar e respeitar as regras impostas pela sociedade. O Lelo lembra-me aqueles criminosos de antigamente, aos quais se retirava uma porção do lobo frontal do cérebro. É nessa porção que se encontra a capacidade de fazer mal mas também é aí que reside a idoneidade de cumprir todos os princípios inerentes desta grande colectividade de que todos fazemos parte. Talvez ser cigano hoje em dia, signifique alguma patologia em que ocorreu ablação do lobo frontal do cérebro. Só assim se percebem certas atitudes. Mas essa ablação parece ter sido apenas parcial, uma vez que a capacidade de fazer mal ainda lá ficou, infelizmente…
Vejo-o com grandes carros, estacionados à frente do acampamento, vemos de lá sair imensa gente, um entra e sai de pacotinhos de pó branco e outras coisas das quais nem me quero lembrar…Ouço a sua canção de sempre, “ajudar o ciganinho”, os seus filhos a vender pensos rápidos impregnados de bactérias. Não é irónico? Usamos pensos rápidos para proteger as feridas das bactérias que vivem com quem nos vende os tais pensos.
É de lamentar que a raça cigana se tenha mutado desta forma. Talvez seja consequência do buraco do ozono. Espero mesmo que seja consequência de qualquer coisa, custa-me acreditar e não quero mesmo saber se isto tudo for da responsabilidade da espécie a que pertenço. Envergonho-me…
Zi
Estou pela faculdade. Cada vez venho cá menos vezes. Agora é só hospital! Apeteceu-me partilhar convosco que passei a manhã no bar a falar com uma amiga e acabei por perceber que afinal, desiludirmo-nos não é assim tão mau... acabamos por dar valor à capacidade que temos de nos protegermos de quem nos quer mal.
Passei a manhã no bar... mas ATENÇÃO! Fui às aulas! Tive Anatomia Patológica. Eram 2 horas de aula que ficaram resumidas a meia hora. 20 minutos até as 10h e intervalo de meia hora. Seguidamente tivemos 10 minutos de aula e... aqui estou eu! Não estou a dizer nada de jeito... por isso vou para farmacologia se a Mariana sair do computador... ok, vou ter que a arrancar... E agora uma qualquer de erasmus com uma pronúncia estranhíssima atendeu o telefone a altos berros, a começar pelo toque ainda natalício a combinar um almoço ou jantar... Deve querer dar a conhecer que tem vida social...
Aqui vou eu...
Zi
quarta-feira, janeiro 21, 2004
Tenho pena dos inúmeros comentários que tinha nos meus textos e que se foram com o final do blogspeak. Agora tenho outro servidor para comentários. Se os participantes activos do meu blog ainda se lembrarem dos comentários antigos vão ao arquivo (outros posts) e complementem assim o que ficou perdido algures pela www.
Obrigada a todos
Zi
quinta-feira, janeiro 15, 2004
Bem sei que as coisas são para ser ditas. Como uma amiga me diria: “Zi (ela chama-me mesmo assim) lá tas tu a escrever vagamente outra vez”. Escrevi a primeira frase e lembrei-me disso. Mas o bom de se escrever superficialmente é que posso descarregar todo o sentimento com o que escrevo e se ele for contraproducente escuso de magoar alguém. Mesmo que mereça. Aprendi isto com a Raquel, a minha “cunhadinha”. Mas como estava a dizer, as coisas são para ser ditas. Devemos dizer sempre que gostamos a alguém que realmente estimamos. Ás vezes as pessoas têm dúvidas, todas são inseguras uma vez por outra. Apesar de eu não ser de muitas palavras faladas e particularmente as que envolvem grande carga emocional consigo escrever e trasladar tudo o que está escrito no meu coração. Mas não é o mesmo que dizer, gritar, mostrar a toda gente e em especial à pessoa a quem as palavras são dirigidas. Aprendi isto com a Di, o meu anjinho da guarda.
Às vezes, devemos simplesmente dar um abraço a quem gostamos, confortar, dar um beijinho em cima de uma lágrima insistente. Aprendi com o Paulo, o fofuxo.
Se calhar, devemos também dizer logo tudo de uma vez, não guardar rancor de ninguém e se os outros guardam rancor nosso um grande “paciência!” para eles. Aprendi com a Jana, a DD-J.
Outras vezes devemos pensar calmamente antes de agir, antes de dizer algo do qual nos possamos arrepender e talvez assim possamos também desculpar, perdoar mais facilmente e dar o braço a torcer porque orgulho imoderado não faz bem a ninguém. Aprendi com a Maria, a minha “sis”.
Outras situações podem levar a que nos irritemos e não devemos ter medo de falar alto por nós, de intimidar quem tenta fazê-lo primeiro, de “stand up for ourselves”. Aprendi com o Pedro.
Com o Vítor aprendi que também podemos não dizer nada, pensar apenas para nós e sentirmo-nos melhor por ter evitado um conflito do qual iriam sair seguramente várias pessoas magoadas.
E há sempre uma altura em que vamos ter que saber ser nós próprios, sem representações nem influências de ninguém… e isso… vou ter de aprender comigo…
Zi
terça-feira, janeiro 13, 2004
Por quanto tempo nos deixamos enganar?
Faço-me esta pergunta inúmeras vezes porque estou constantemente a desiludir-me com as pessoas.
Mas quem sabe... talvez hoje mesmo tenha sido eu a desiludir alguém. O que é certo é que todos temos um ou outro caso para contar no qual ficamos decepcionados com alguém. Afinal, de onde vem essa decepção? Normalmente vem de sentimentos fortes, de grandes espectativas, de juizos mal formados. Pelo menos, quando achamos que fomos enganados é porque um dia já pensamos que a pessoa que nos enganou era confiável... se calhar quase perfeita.
E qual o preço a pagar pela desilusão? É cair do conto de fadas e descobrir que afinal a bruxa tem muitos truques e bem malvados!
O problema é quando a bruxa tem ar de gata borralheira... Aí sim é difícil aceitar a mudança, as palavras mágicas do terrível feitiço que fingimos não ouvir só para não nos magoarmos e aceitamos a maçã envenenada... mas só a provamos se quisermos...
Hoje, recuso-me a provar qualquer maçã que me seja dada por quem eu não confio ou por quem eu acho que se esconde por baixo de um capuz.
E é incrível como anda tanta gente encarapuçada por aí...
Zi
sexta-feira, janeiro 09, 2004
A sério... às vezes conseguem irritar-me! Tanta presunção junta!
Partindo para a capital!
Até segunda!
CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE
Receita de Ano Novo
PARA VOCÊ ganhar belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo
até ao coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa de beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegrama?).
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
in Poesia e Prosa - Volume Único
Editora Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1983
posted by Mel
segunda-feira, janeiro 05, 2004
Se há coisa que detesto é quando as pessoas abusam!
Mas que mania! Acho que em Portugal se desenvolve a arte de bem abusar dos outros.
São os drogados na rua a pedir dinheiro quando nos ajudam a estacionar em espinha e ainda mais, num estacionamento pago, são os empregados dos restaurantes que incluem a gorjeta na conta com uma infindável lista de couverts nos quais nem sequer tocamos, são as empregadas domésticas que parece que trabalham por favor e ainda têm a audácia de dizer, quando se lhes faz algum reparo: “Se não está satisfeita com o meu trabalho vou-me embora que não estou a morrer de fome”, são os homens da gasolina que não põem a quantia que nós pedimos do respectivo combustível mas cobram exactamente o mesmo, são os brindes deste mesmo serviço que nunca estão disponíveis, são aqueles vizinhos que estão constantemente a pedir favores e quando passam por nós na rua fingem que nem sequer nos conhecem, são as lojas de fotografia que nos enfiam sempre uma ou outra estragada lá pró meio e quando no entregam as fotos ficam muito preocupados e indignados se resolvemos verificar todas. São as empregadas das lojas que se põem ao telefone nas nossas “barbas” a contar a vida toda à melhor amiga e nos deixam eternidades à espera, são as senhoras das secretarias que passam a manhã a contar anedotas dos malucos do riso às colegas e nem se preocupam na fila de gente que se forma mesmo à frente delas, são os professores da faculdade que nos estragam o trabalho que estamos a fazer ao exemplificar e ainda por cima nos avaliam como se o trabalho tivesse sido inteiramente feito por nós, são os colegas que têm a mania de assinar o trabalho dos outros ou pedem constantemente para assinar a folha de presença nas aulas práticas. São as pessoas que nunca vêm quando estão a mais e se “colam” a nós uma noite inteira e ainda outras que forçam encontros do estilo… “Vinha aqui a passar à porta do hospital onde tens aulas e… (sim porque toda a gente passeia para os lados do hospital). São as colegas que nos batem a porta quando estamos doentes para exigir apontamentos que possamos ter e nos obrigam a levantar da cama para procurar os ditos. São as amigas que pensamos ter e no fim são apenas grandes falsas, hipócritas e invejosas. São pessoas que adoram abusar e vão apanhando parvas como eu que lhes aparo os golpes. Mas qualquer dia revolto-me e corro tudo à chapada…
Zi
Mas que mania! Acho que em Portugal se desenvolve a arte de bem abusar dos outros.
São os drogados na rua a pedir dinheiro quando nos ajudam a estacionar em espinha e ainda mais, num estacionamento pago, são os empregados dos restaurantes que incluem a gorjeta na conta com uma infindável lista de couverts nos quais nem sequer tocamos, são as empregadas domésticas que parece que trabalham por favor e ainda têm a audácia de dizer, quando se lhes faz algum reparo: “Se não está satisfeita com o meu trabalho vou-me embora que não estou a morrer de fome”, são os homens da gasolina que não põem a quantia que nós pedimos do respectivo combustível mas cobram exactamente o mesmo, são os brindes deste mesmo serviço que nunca estão disponíveis, são aqueles vizinhos que estão constantemente a pedir favores e quando passam por nós na rua fingem que nem sequer nos conhecem, são as lojas de fotografia que nos enfiam sempre uma ou outra estragada lá pró meio e quando no entregam as fotos ficam muito preocupados e indignados se resolvemos verificar todas. São as empregadas das lojas que se põem ao telefone nas nossas “barbas” a contar a vida toda à melhor amiga e nos deixam eternidades à espera, são as senhoras das secretarias que passam a manhã a contar anedotas dos malucos do riso às colegas e nem se preocupam na fila de gente que se forma mesmo à frente delas, são os professores da faculdade que nos estragam o trabalho que estamos a fazer ao exemplificar e ainda por cima nos avaliam como se o trabalho tivesse sido inteiramente feito por nós, são os colegas que têm a mania de assinar o trabalho dos outros ou pedem constantemente para assinar a folha de presença nas aulas práticas. São as pessoas que nunca vêm quando estão a mais e se “colam” a nós uma noite inteira e ainda outras que forçam encontros do estilo… “Vinha aqui a passar à porta do hospital onde tens aulas e… (sim porque toda a gente passeia para os lados do hospital). São as colegas que nos batem a porta quando estamos doentes para exigir apontamentos que possamos ter e nos obrigam a levantar da cama para procurar os ditos. São as amigas que pensamos ter e no fim são apenas grandes falsas, hipócritas e invejosas. São pessoas que adoram abusar e vão apanhando parvas como eu que lhes aparo os golpes. Mas qualquer dia revolto-me e corro tudo à chapada…
Zi
sábado, janeiro 03, 2004
"ME ME ME ME... ME TOO"
"20 thousand seconds since you've left and I'm still counting
And 20 thousand reasons to get up,
get something done, but I'm still waiting
Is someone kind enough to pick me up and give me food,
assure me that the world is good
But you should be here, you should be here
How colors can change and even the texture of the rain
And what's that ugly little stain on the bathroom floor
I'd rather not deal with that right now
I'd rather be floating in space somewhere or
Worry about the ozone layer
And it's almost like a corny movie scene
But I'm out of frame and the lighting's bad
And the music has no theme
And we're all so strong when nothing's wrong
And the world is at our feet
But how small we are when our love is far away
And all you need is you"
K's Choice - 20 thousand seconds
Para a Maria
Escrevo-te porque a quem mais teria eu de escrever senão a ti…?
Escrevo em tom de homenagem a quem protege o maior dos meus medos… a quem senão a ti tenho coragem de contar o que me aflige e atormenta. A que outra pessoa poderia mostrar-me frágil sem desonra? Com quem poderia ser eu genuína?
Aqui fica o meu tributo a quem guarda o maior dos meus segredos… a quem senão a ti poderia confiar as palavras escritas no meu espírito, o que surge do nada e me surpreende, o que não tenho a audácia de contar a ninguém?
A quem mais poria eu em evidência a não ser a ti que patrocinas a maior das minhas ambições e torces sempre, do fundo do coração, para que corra tudo bem?
Porque é que não consigo escrever mais a quem tem sempre algo para me dizer, uma palavra de conforto, outra de alento, algumas de reprovação e um sorriso constante que me diz mais acima de todas as palavras?
És tu, alguém para sempre especial, uma grandiosa amizade… uma amiga excepcional!
Zi
sexta-feira, janeiro 02, 2004
“Deite fora o ano velho e dê as boas vindas ao ano novo!”
É o que mais se ouve por aí. “Bom ano” Mas que preocupação, a das pessoas todas, a desejarem bom ano a torto e a direito. Sabem o que chego a pensar? Que toda a gente detesta as suas vidas!
Cada vez dou menos importância ao fim de ano. Aliás, que importância deveria dar? Se tiver constipada no dia 31 de Dezembro dou-vos quase a certeza de que no outro dia de manhã acordo com a mesmíssima constipação. Afinal, o que é que muda no novo ano?
Eu não quero mudar de curso, não quero mudar de amigos, não quero mudar de pais, não quero mudar de cara, nem de corpo, não quero mudar de casa, de carro também não é prioritário. Não quero mudar de ideias, não quero mudar de valores morais, não quero mudar de amores nem de outros que tais. Afinal… o que é que querem que eu mude?
Sim, espero que tudo corra bem. Mas também espero que os últimos dias de Dezembro corram às mil maravilhas. Ninguém de deseja “bom dia 29 ou 30”… mas porquê? Há tantas desgraças a acontecer por estes dias festivos… a começar pelos acidentes de automóvel e a acabar nas mortes horrendas que ocorrem nestes mesmos acidentes. Há famílias que ficam desfeitas nesta correria aos grandes festins nos quais ainda por cima a diversão é à portuguesa… ou seja… à frente de uma mesa na desmedida comezaina.
É outra coisa que também não me cabe na cabeça. As festas de fim de ano normalmente trazem no programa: Entradas: belos queijos e belos presuntos, nos pratos principais vêm os belos cabritos e os belos borregos com belos leitões e a bela da mariscada. Nas sobremesas vêm as belas das mousses, dos pudins molotof, dos doces da avó e uma imensidade de bolos do belo do chantilli. As bebidas passam pela vinhaça e pela gasosa.
Ninguém fala na música divertida, do ambiente que deveria ser variado, do champanhe de qualidade e das passas que devem ser habitualmente doze e nas quais eu não toco porque simplesmente não suporto. Não, porque em Portugal devemos comer e beber para encher a típica pança portuguesa…Lá muito de vez em quando vem a banda dos primos catita ou da Cátia Vanessa com o Vicente Ricardino cantar a bela da música pimba.
Mas divertimento com qualidade não há em Portugal!
Lá vamos todos dançar à volta da mesa de palito na boca… a olhar de esguelha!
Zi
quinta-feira, janeiro 01, 2004
"I can't fight this feeling anymore..."